← Jurioteca
AgRg no HC 202303274782 — STJ
- Tribunal
- STJ
- Processo
- 853374
- Registro
- 202303274782
- Classe
- AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS
- Relator(a)
- DANIELA TEIXEIRA
- Órgão julgador
- QUINTA TURMA
- Data da decisão
- 2025-06-17
- Data de publicação
- DJEN DATA:27/06/2025
- Tipo
- ACÓRDÃO
Julgado em 17/06/2025
Ementa
DIREITO PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS.
PRONÚNCIA FUNDAMENTADA EM TESTEMUNHOS INDIRETOS. IMPOSSIBILIDADE.
INSUFICIÊNCIA PROBATÓRIA. NECESSIDADE DE LASTRO MÍNIMO DE INDÍCIOS
DE AUTORIA. INCOMPATIBILIDADE DO IN DUBIO PRO SOCIETATE COM A
PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
I. CASO EM EXAME
1. Agravo regimental interposto contra decisão que concedeu ordem de
habeas corpus, reconhecendo constrangimento ilegal na pronúncia do
paciente Daniel da Silva Oliveira pelos crimes de homicídio
qualificado e aborto. A decisão de pronúncia foi fundamentada
exclusivamente em depoimentos indiretos ("ouvir dizer") e provas
colhidas na fase inquisitorial, sem indícios suficientes de autoria.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2. Há duas questões em discussão:(i) verificar a admissibilidade de
decisão de pronúncia fundamentada exclusivamente em testemunhos
indiretos e elementos da fase inquisitorial;(ii) analisar a
aplicabilidade do in dubio pro societate frente ao princípio
constitucional da presunção de inocência.
III. RAZÕES DE DECIDIR
3. O testemunho indireto ou hearsay testimony é inadequado, quando
isolado, para embasar decisão de pronúncia, uma vez que carece de
confiabilidade e impede o contraditório pleno, sendo admissível
apenas para direcionar a colheita de outras provas na instrução
processual (CPP, art. 209, § 1º).
4. O art. 155 do CPP veda a fundamentação exclusiva da pronúncia em
elementos colhidos na fase inquisitorial, exigindo que a decisão
esteja ancorada em lastro probatório mínimo que inclua indícios
suficientes de autoria.
5. O princípio in dubio pro societate é incompatível com a presunção
de inocência (CF/1988, art. 5º, LVII) e com o modelo bifásico do
Tribunal do Júri, conforme entendimento consolidado pelo Supremo
Tribunal Federal (HC 227.328/PR) e pelo Superior Tribunal de
Justiça.
6. No caso concreto, a decisão de pronúncia baseou-se exclusivamente
em testemunhos indiretos e elementos produzidos na fase
inquisitorial, sem provas mínimas que justifiquem a submissão do
paciente ao julgamento pelo Tribunal do Júri, configurando grave
constrangimento ilegal.
IV. DISPOSITIVO E TESE
7. Agravo regimental desprovido.
Fonte: STJ — acervo público. Buscar o inteiro teor deste processo na Biblioteca.