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REsp 202501074005 — STJ
- Tribunal
- STJ
- Processo
- 2205709
- Registro
- 202501074005
- Classe
- RECURSO ESPECIAL
- Relator(a)
- JOEL ILAN PACIORNIK
- Órgão julgador
- TERCEIRA SEÇÃO
- Data da decisão
- 2025-10-08
- Data de publicação
- DJEN DATA:29/10/2025
- Tipo
- ACÓRDÃO
Julgado em 08/10/2025
Ementa
CRIMES AMBIENTAIS. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA.
RITO DOS REPETITIVOS. CRIME DO ART. 54, CAPUT, PRIMEIRA PARTE, DA
LEI N. 9.605/98. NATUREZA FORMAL DO DELITO. REALIZAÇÃO DE PERÍCIA.
DESNECESSIDADE. POTENCIALIDADE DE DANO À SAÚDE. FIXAÇÃO DE TESE.
RECURSO ESPECIAL DA ACUSAÇÃO PROVIDO PARA AFASTAR A DESCLASSIFICAÇÃO
PARA PERTURBAÇÃO. ART. 42 DO DECRETO-LEI N. 3.688/41. POLUIÇÃO
SONORA. ART. 54, CAPUT, DA LEI N. 9.605/98. CRIME DE PERIGO
ABSTRATO. RECURSO PROVIDO.
I. CASO EM EXAME
:
1. Recurso especial interposto pelo Ministério Público do Estado de
Minas Gerais contra acórdão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais
que desclassificou a conduta de poluição sonora prevista no art. 54,
caput, da Lei n. 9.605/1998 para a contravenção penal do art. 42 do
Decreto-Lei n. 3.688/1941, reconhecendo a prescrição retroativa e
extinguindo a punibilidade do agente.
2. O Tribunal de origem entendeu que, para a caracterização do
delito ambiental, seria necessária a comprovação de poluição de
considerável magnitude, apta a causar ou potencialmente causar danos
à saúde humana, circunstância que não teria sido comprovada nos
autos.
3. O Ministério Público sustentou, em recurso especial, que o crime
previsto no art. 54, caput, da Lei n. 9.605/1998 possui natureza
formal e se caracteriza como crime de perigo abstrato, prescindindo
de laudo pericial que comprove o efetivo risco à saúde humana.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
4. A questão em discussão consiste em definir: (i) a natureza
jurídica do crime ambiental previsto no art. 54, caput, primeira
parte, da Lei n. 9.605/1998; e (ii) se há necessidade de realização
de prova pericial para sua configuração.
III. RAZÕES DE DECIDIR
5. O crime previsto no art. 54, caput, da Lei n. 9.605/1998 possui
natureza formal, sendo suficiente a potencialidade de causar danos à
saúde humana para sua configuração, sem necessidade de comprovação
de dano efetivo.
6. A interpretação da Lei de Crimes Ambientais deve ser feita à luz
dos princípios constitucionais do meio ambiente ecologicamente
equilibrado, do desenvolvimento sustentável e da prevenção de danos,
considerando o valor jurídico próprio do meio ambiente e seu
interesse difuso.
7. A doutrina e jurisprudência majoritárias reconhecem que o crime
de poluição ambiental é de perigo abstrato, prescindindo de prova
pericial para demonstrar o risco potencial à saúde humana ou ao
equilíbrio ecológico.
8. No caso concreto, a prática de poluição sonora, mediante emissão
de ruídos acima do limite estabelecido, configura risco concreto à
saúde humana, evidenciando a materialidade e tipicidade da infração,
independentemente de comprovação de dano efetivo.
IV. DISPOSITIVO E TESE
9. Resultado do Julgamento: Recurso provido para restabelecer a
condenação proferida pelo Juízo de primeira instância.
Tese de julgamento:
1. O tipo previsto na primeira parte do caput do artigo 54 da Lei n.
9.605/1998 possui natureza formal, sendo suficiente a
potencialidade de dano à saúde humana para a configuração da conduta
delitiva, não sendo exigida a efetiva ocorrência do dano, nem a
realização de perícia técnica, podendo a comprovação se dar por
qualquer meio de prova idôneo.
Dispositivos relevantes citados: Lei n. 9.605/1998, art. 54;
CF/1988, art. 225.
Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp 1417279/SC, Rel. Min.
Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, julgado em 25.08.2020.
Fonte: STJ — acervo público. Buscar o inteiro teor deste processo na Biblioteca.